CLAUSURA
Amargo é andar sem destino aparente,
Sem ter a visão do futuro, meu Deus!
Falando sozinho, a procura dos seus
Amigos, que um dia fugiram da gente.
Os becos da vida são tantos, quisera
Que um dia algum deles virasse avenida
Bonita, risonha, suprema, florida
Por onde pudesse passar a quimera.
Se andar é amargo quando sem destino,
Existe a alegria e a opção de deter-se.
Que sempre se leve consigo esse ensino.
Andar é viver, é poder, é querer-se
Pois mesmo que seja o beco pequenino
Feliz é aquele que pode mover-se.
LUIZ SOARES – Itamaracá 01/02/05
VIVÊNCIA
Um barco se afasta.
Perto de nós era grande,
Agora é muito pequeno.
Penso que vai se esconder
Por trás de alguma coisa...
Daquela onda maior.
Você também, feito o barco,
Vai se afastando, vai indo.
Mais longe, mais longe vai.
A vivência que era grande
Vai ficando pequenina.
Mais e mais vai se apagando
De toda imaginação.
Nunca fui, sempre fiquei.
Sempre me deixaram só
Na praia, na segurança
De rever quem se afastou.
De tantas coisas vivemos,
De eternidades fugazes
Que se vão, não voltam nunca.
Tristezas nos acompanham
E se vão também com o tempo.
As alegrias da vida
Não são boas companheiras,
Ficam conosco um instante
Nos iludem, riem de nós
Riem por serem sem ser.
Se nos sentimos alegres,
As tristezas nos avisam:
Alguma coisa se foi
E deixou recordação.
Chore que o choro é real
De tristezas é o sinal
Pois a vida disso é feita
Mas nós, contudo, insistimos
Em ficar na ilusão,
Queremos a alegria
E ela foge de nós.
E, se ao contrário de tudo,
Resolvemos de uma vez
Seguir a nossa tristeza,
Ela faz com que nós mesmos
Nos escondamos também.
Alegria é ilusão.
Tristeza é realidade.
E quando amigos se vão,
Além de tudo, nos deixam
Uma infinita saudade.
XXIII-III-MMIV
PESADELO
Menino pobre, sonhador, inculto.
Parti, um dia, o coração de um velho.
Fui conhecer o mundo do espelho,
Onde os narcisos reinam e aparecem
Parti e não voltei, sonhei, estulto!
Na multidão de espelhos me perdi
E nos milhões de imagens percebi
O falso mundo onde elas acontecem.
Quando acordei e quis voltar, não pude.
Não encontrei a trilha de retorno.
Insisti, procurei e quando, um dia,
Eu consegui voltar, um ataúde
Andava devagar sob o céu morno,
Deixando atrás uma casa vazia.
Luiz Soares Melo-06/08/01
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